Pasquale, Edinaldo(artista) e Rosa.

Amigos Italianos em visita ao Ateliê os Curumins, agosto de 2011.

EDINALDO GONZAGA DE SOUZA - Odlanide

HISTÓRIA DA ARTE PARAIBANA - DÉCADA DE 1990


Sandoval Fagundes, II Paixão de Cristo em Art-Door. João Pessoa, 1990

Este período é marcado pelos intercâmbios internacionais entre artistas da Paraíba e de países como a Alemanha, França e Suíça. Esse fenômeno difere das décadas passadas quando os artistas locais migravam para o eixo Rio-São Paulo. A criação do Centro de Artes Visuais Tambiá-CAVT (1994), pela família Almeida (Antonio Augusto, Marlene e José Rufino) e das associações Le Hors-Là e Rede para o movimento de artistas visuais (Raul Córdula, Chico Pereira e Dyógenes Chaves), culminaram com viagens de estudo à Europa dos artistas Rodolfo Athayde, Rosilda Sá, Otávio Maia, Luiz Barroso, Dyógenes Chaves, Chico Pereira, Alice Vinagre, Sérgio Lucena, Fabiano Gonper, Murilo Campelo e Marcos Veloso. Em 1998 a Rede recepcionou um grupo de 12 artistas franco-suíços para uma estadia de dois meses em João Pessoa (projeto Laboratoire), através da Fundação Pro Helvetia e com apoio oficial local, na perspectiva de trocas de experiência. Apesar do Sudeste não ser mais a única alternativa para os jovens talentos da terra, ainda estava claro que havia necessidade de reconhecimento além fronteiras.


Catálogo da mostra Xilogravura:
do cordel à galeria. Funesc,
João Pessoa, 1993

Além do surgimento de várias galerias na cidade – Athaendy (Giovanna Germoglio e Pepita], Escritório de Arte da Paraíba [Suzete Forte], Artenossa [Maristela Mendonça], Transarte [Lu e Júnior], Falcone Arte&Objetos [Fernando Falcone], entre outras – há a consolidação dos salões regionais: o Salão Municipal de Artes Plásticas-SAMAP (da Prefeitura de João Pessoa), e o Salão de Novos Artistas Paraibanos-SNAP (Sesc João Pessoa), que passam a abrigar a novíssima geração de artistas locais.

Ainda no final da década passada, o Departamento Cultural da Prefeitura de João Pessoa, promove a mostra Paixão de Cristo em Art-Door, com obras realizadas por artistas locais representando as 15 estações da Via Sacra, e exibidas em placas de out-door no anel externo da Lagoa do Parque Solon de Lucena. A ideia tinha como referência a Exposição Internacional de Art-Door, ocorrida no início dos anos 80, em Recife, e organizada por Paulo Bruscky e Daniel Santiago. O projeto logo foi abortado na sua 4ª edição em função das polêmicas causadas por algumas obras que suscitavam “provocação” à religiosidade da população de João Pessoa.

Em 1993, durante a gestão da artista Marlene Almeida na coordenação de artes plásticas da Funesc, foi realizada a mostra Xilogravura: do cordel à galeria, sob a curadoria de Leonor Amarante, que, um ano depois levava esta mostra para o MASP, em São Paulo. Sem dúvida, foi a maior mostra com artistas xilográfos já realizada no país e que, além de seminários e debates, ocupou todo o mezanino, praça e auditórios da Funesc. No ano seguinte, por iniciativa do seu presidente, Antônio Alcântara, a Funesc cria o Festival Nacional de Arte-Fenart, com objetivos de promover ações artísticas, de entretenimento e de formação, em todas as áreas da cultura. Apesar do desuso do modelo “festival” (os festivais de arte estavam cada vez mais se especificando em determinadas áreas), o Fenart emplacou pela simples razão de dispor de um espaço gigantesco (talvez o maior do país) totalmente equipado para atender um festival completo. Em todas suas edições, a programação de artes plásticas do Fenart homenageou vários artistas plásticos – Simeão Leal, Jackson Ribeiro, Raul Córdula, José Lyra e Archidy Picado –, realizou cinco mostras bienais de Desenho e de Gravura, além de ter oferecido workshops, dedicados aos artistas iniciantes, ministrados pelos artistas: Maria Bonomi, Raul Córdula, Leda Catunda, Paulo Bruscky, Gil Vicente, José Rufino, Leda Watson, Edgar Vasques, Uiara Bartira, Ester Grinspun, Jean Stern, Carlos dos Reis e Luísa Gonçalves (de Portugal).









HISTÓRIA DA ARTE PARAIBANA - DÉCADA DE 1980

Chico Pereira, Um dia de sol. Feirinha de Tambaú,
João Pessoa, 1979
No começo da década, as atividades do NAC ganhavam corpo e espaço na mídia nacional. O que se justifica com a presença de artistas seminais da arte contemporânea brasileira – Tunga, Marcelo Nietsche, Cildo Meireles, Anna Maria Maiolino, Paulo Roberto Leal, Paulo Klein, Antonio Dias, entre outros –, para “experimentações” até mesmo inéditas em outras capitais nordestinas. No NAC, também aconteceram ações de artistas locais, como Um dia de sol, intervenção urbana de Chico Pereira, e, Cenografia e adereços da donzela Joana, de Breno Mattos. Em 1984, com o fim do programa desenvolvido pelos criadores do NAC, o seu retorno, dois anos depois, em nada correspondia ao vanguardismo inicial proposto.

Abertura da I Arte atual paraibana. Funesc,
João Pessoa, 1988
Apesar do marasmo que passou a existir na cidade, entretanto, duas notícias vislumbravam novo tempo: a criação de uma associação de artistas plásticos e a construção, no Governo Burity, do Espaço Cultural José Lins do Rêgo, projeto de Sérgio Bernardes e inaugurado em 1983, no bairro de Tambauzinho. Ali se instalava a Fundação Espaço Cultural da Paraíba- Funesc, cujo setor de artes plásticas – sob a orientação dos artistas Hermano José, Régis Cavalcanti e, depois, Arthur Cantalice – foi um dos primeiros a desenvolver suas atividades com a oferta de cursos livres e a realização de mostras de novos artistas. Archidy Picado, Unhandeijara Lisboa, Dyógenes Chaves, Fred Svendsen, Chico Ferreira, Chico Dantas e Alcides Ferreira, eram alguns dos professores. Logo após abrigar a gigantesca mostra de arte neo-expressionista alemã [Momentaufnen, 1987], seguida de workshops entre brasileiros e alemães, a Funesc organizou, por solicitação da classe artística e empenho direto do governador Tarcísio Burity, duas grandes mostras – Arte atual paraibana, I e II – em que se apresentava um panorama da arte local produzida naquele momento. Em 1987 a UFPB cria a sua Pinacoteca, em um espaço provisório na Biblioteca Central, “com obras de artistas que atuaram como professores do Departamento Cultural nos anos sessenta e que tiveram importante papel na formação de uma geração que vai emergir neste mesmo período e nas gerações subseqüentes”, como relata a professora Rosires Andrade, ex-diretora da Pinacoteca.

Rodolfo Athayde,
Alice Vinagre,
Dieter Ruckhaberle e
Maria Helena Magalhães.
Workshop Brasil-Alemanha, 1990
Fazendo uma análise sobre a tradição da pintura na Pinacoteca da UFPB, afirma Rosires: “A produção artística, nas primeiras décadas, esteve mais ligada à figuração mais próxima da Escola Pernambucana, a um repertório regional no sentido do apego às tradições e ao imaginário popular nordestino, presentes de maneira exemplar, na obra de João Câmara, Roberto Lúcio, Miguel dos Santos e Flávio Tavares. Por outro lado, nota-se a reação de um grupo de artistas liderados por Raul Córdula, em que a figuração cede lugar a uma expressão em que os elementos visuais, cores e formas são o tema e o assunto.” (...)


Governador Tarcísio Burity

“A corrente figurativa tem continuidade nas décadas seguintes através de uma diversidade de propostas embasadas no expressionismo, representadas pela produção dos artistas: Alice Vinagre, apresentando uma visão ontológica do homem mergulhado nas contradições do mundo atual; Chico Dantas, revelando uma obsessão pela anatomia humana apresentando de maneira velada a nebulosidade do ser contemporâneo; Fred Svendsen, compondo figuras bestiais de um mundo taciturno; José Crisólogo, mostrando o imaginário do povo sertanejo na sua força para vencer as adversidades; e Sérgio Lucena, reiterando uma face mascarada e espectral do imaginário, povoado de figuras sinistras.”

Alice Vinagre,
S/T, acrílica sobre tela,
120x90cm,
1989. Acervo UFPB
O professor Gabriel Bechara, na apresentação do catálogo da mostra I Arte atual paraibana (Funesc, 1988), também analisa o embate entre figuração-abstração na Paraíba: “Se a figura era ainda a dominante na pintura no Nordeste, mesmo que longe de padrões acadêmicos e rica em descobertas, havia, porém, a resistência de alguns que se opunham a ela na Paraíba, como Raul Córdula e Chico Pereira. A estes últimos juntaram-se depois Rodolfo Athayde e Cláudio Santa Cruz que formam hoje um grupo mais comprometido com a arte não-figurativa. Roberto Lúcio, artista paraibano radicado no Recife, aos poucos abandona a figuração, detendo-se numa pesquisa sutil de formas e gradações cromáticas que ainda se reportam à paisagem. O final dos anos setenta viu surgir também uma nova pintura representativa, menos comprometida com o regional e seu imaginário e mais voltada para o grotesco, malgrado a diversidade dos artistas. Chico Dantas, Chico Ferreira, Fred Svendsen e Lacet são exemplos deste novo expressionismo ao qual se juntariam depois Alice Vinagre, e mais recentemente, Wagner, Roró de Sá e Sérgio Lucena.” (BECHARA FILHO, 1988)


Alberto Lacet,
Um outro Políbio,
óleo sobre tela, 90x70cm,
1987. Acervo Funesc
Dentre as galerias de arte surgidas neste período, em João Pessoa, destaca-se a Galeria Gamela, de Roseli e Altemir Garcia, no centro da cidade [rua Almirante Barroso, nº 144], que desde 1980 tem se consolidado no comércio de obras de artistas já consagrados e/ou de novos talentos locais. Em maio de 1985 é inaugurada a Galeria Archidy Picado, nas dependências da Funesc, em homenagem a este artista falecido no início do ano. Como galeria oficial, tem objetivos de apoiar os novos artistas e as tendências menos comerciais. No começo da década a arquiteta, Madalena Zaccara, criou a MZ Artearquitetura (manteve-se até 1982), onde realizou mostras dos artistas Rubens Gerchman e Claudio Tozzi (em contatos estabelecidos através do NAC), Maurício Arraes, Raul Córdula, Flávio Tavares, José Lucena e sua filha Letícia, Tota e seu filho Temílson Régis. Outros espaços ainda funcionavam na cidade: o Hall da Biblioteca Central da UFPB, dedicada a alunos e professores do curso de Educação Artística e, no Theatro Santa Roza, a Galeria José Américo de Almeida (criada anteriormente com o nome de Galeria Tomás Santa Rosa), que, sob a direção do artista Hermano José, realizou o Salão A presença do mar nas artes plásticas; e, a Galeria Visual, do artista campinense Antonio Rocha.



HISTÓRIA DA ARTE PARAIBANA - DÉCADA DE 1970

Laís Aderne,
uma das principais articuladoras para a criação
do curso de Educação Artística da UFPB
Em 1976 a Universidade Federal da Paraíba, tendo à frente o Reitor Lynaldo Cavalcanti, volta a desempenhar papel importante para o desenvolvimento das artes plásticas no Estado, como havia sido na década anterior. Ainda funcionavam os cursos livres de arte, sob a supervisão da Coordenação de Extensão Cultural, setor que substituíra o antigo Departamento Cultural, instalada num edifício na Praça Rio Branco, centro da capital, e onde lecionavam os artistas Gilvan Samico, Montez Magno, João Câmara Filho, Arthur Cantalice, Roberto Lúcio, Alfonso Bernal, Euclides Sá, entre outros.

E em 1977, finalmente, era criado o curso de Educação Artística na UFPB, e Chico Pereira explica: “A nova dinâmica imposta por Lynaldo Cavalcanti nas áreas da ciência e tecnologia passou a exigir também, no campo da cultura, a mesma postura. Foi criado o Departamento de Artes e de Comunicação, para a formação de arte-educadores, jornalistas e relações públicas.” (...)

“No mesmo período, foram criados os atuais núcleos artísticos e de pesquisas culturais, entre eles o Núcleo de Arte Contemporânea-NAC, este com o objetivo de estabelecer uma ponte entre a Paraíba e centros nacionais e internacionais, bem como promover internamente uma atualização crítica do ponto de vista teórico e prático com as outras disciplinas universitárias. Para a criação deste Núcleo, a UFPB convidou o artista Antonio Dias e o crítico Paulo Sérgio Duarte, que se responsabilizaram pelo projeto do NAC, o qual teve também a participação do artista plástico Raul Córdula e do sociólogo Silvino Espínola. O Núcleo de Arte Contemporânea foi marco divisor no panorama da arte local. Apesar do processo de modernidade nas artes, acontecido antes na Paraíba, o NAC produziu no cenário da arte brasileira um questionamento importante, que foi o de romper a ditadura da hegemonia do eixo Rio-São Paulo.

Encontro de professores da UFPB
para a discussão do projeto do NAC.
Campina Grande, 1977

Até então, era impossível acontecer movimento significativo de arte contemporânea fora dessa engrenagem. Logo depois da instalação do NAC, foi criado o Departamento de Artes do Campus II, em Campina Grande, com a finalidade de expandir o ensino das artes. Apesar de ser um departamento, funciona até hoje como extensão artística. Terminado o Reitorado Lynaldo Cavalcanti, as administrações posteriores não emprestaram ao NAC a mesma atenção quando da fase da sua criação, até porque os recursos também se tomaram escassos e as sucessivas mudanças ocorridas na direção desse Núcleo concorreram para o seu declínio.”(SILVA JÚNIOR, 1979)

Assim também confirma Raul Córdula, um dos coordenadores do NAC ao lado de Chico Pereira, “como sua equipe inicial, concebeu, nasceu, cresceu e morreu entre 1978 e 1984, quando foi fechado para reformas e, ao reabrir dois anos depois, suas ideias renovadoras e contemporâneas do futuro estavam desgastadas pela falta de apoio que sucedeu. Ele existe ainda com o mesmo nome, mas não passa de uma galeria de arte convencional que, embora tenha apresentado ao público algumas exposições, é apenas espaço conveniente para as relações públicas da UFPB.” (CÓRDULA, 2004)

Antonio Dias. Campina Grande, 1977

Na esteira do boom econômico dos anos 70, surge uma classe média interessada num gosto bem “decorativo” e proliferam galerias pelo país. Na Paraíba, no entanto, algumas poucas ações de mercado começam a investir mais no artista local, na ideia de formar colecionadores e exibir os artistas emergentes. Daí surge a Galeria Batik, misto de galeria e escritório das arquitetas Conceição Serra e Madalena Zaccara, que existiu até 1979.